A arte de ser criança no Cinema Francês

Quem acompanha o blog no facebook (curte aqui) já está sabendo que hoje o THC comemora 2 anos de existência! E eu aproveito a data especial para anunciar a estréia de um novo colaborador por aqui: o Thomson (amigo querido e cinéfilo apaixonadíssimo). Vamos acompanhar!

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O cinema, ao contrário da literatura, é uma arte onde há pouco espaço para a imaginação do espectador. A visão da trama desenvolvida na película é moldada pelo diretor e pelo roteirista que delegam ao protagonista a árdua tarefa de convencer o público a criar empatia com o que é narrado. Cientes disso, os cineastas franceses lançam mão de um recurso eficaz que ao longo de sua história reforça o entendimento de porque a França foi palco das principais transformações sofridas no mundo da imagem em movimento. Estou falando aqui da inserção de crianças como protagonistas, os pequenos notáveis além de trazerem consigo o “fator fofura” (que pesa muito na hora da divulgação do filme) demonstram ter um talento excepcional diante das câmeras.

A explicação para essa multiplicação de menores nas telonas é bem simples: ninguém enxerga melhor o mundo do que uma criança. Das narrativas mais triviais às mais complexas a presença do elenco-mirim traz ao filme um ar de renovação, de esperança e leveza.Talvez por isso os cineastas franceses não deixem de incluir crianças em seus argumentos, ademais quando o diretor tem a vantagem de poder moldar o seu mini ator, de extrair dele expressões e sentimentos mais naturais. Sem esquecer o fato de que eles são menos exigentes ($$$$). Assim não tem como não resistir, não é verdade?

Para que você mesmo possa constatar como uma criança pode suavizar até o tema mais sombrio ou dar sentido às estórias mais simples, sugiro alguns filmes que, em minha opinião, compõem um interessante panorama sobre a hegemonia francesa nesse ramo. Ah! o melhor é que assim como os seus protagonistas todos esses filmes são pequenos, dá pra você assistir vários e um dia só!

Brinquedo proibido (Jeux Interdits, 1952)

Preparem seus lenços para receberem muitas lágrimas! Essa obra multipremiada (Vencedora do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro) de René Clément, que traz como pano de fundo a 2ª Guerra Mundial, gira em torno de Paulette (Brigitte Fossey) órfã de pai, mãe e cachorro (não chore ainda, é só o começo) que logo após presenciar o extermínio de sua família, foge carregando o seu cachorrinho morto até encontrar Michel Dollé (Georges Poujouly) filho dos fazendeiros que acolhem a menina. Juntos os garotos decidem enterrar o animalzinho de estimação que a garota trouxe consigo e para que ele não fique sozinho criam um cemitério de bichinhos. Assim surge uma fantasia para lidar com o trauma da morte e os horrores da guerra. Essa película foi pioneira ao retratar temas tão sombrios através do olhar inocente das crianças.

Os incompreendidos (Les quatre cents coups, 1959)

Filme de estreia de François Truffaut no movimento cinematográfico denominado Nouvelle Vague encabeçado por ele, André Bazin, Godard e outros revolucionários, esta película que traz Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), uma espécie de alter ego do diretor, aborda a conturbada relação familiar de seu protagonista que encontra na delinquência a válvula de escape para o seu descontrole emocional. Rodado quase que totalmente nas ruas de Paris, o que torna a cidade uma personagem da trama na medida em que acolhe o garoto na sua selva de pedra onde a beleza de sua arquitetura esconde o declínio social que assola algumas famílias. Com um shot final icônico (provavelmente você já tenha visto a cena) que até hoje ilustra várias publicações sobre cinema, essa obra é um retrato intenso da infância.

O pequeno Nicolau (Lê Petit Nicolas, 2009)

Um dos filmes mais divertidos que já tive a oportunidade de assistir. Baseado na série de livros criada pelo cartunista e ilustrador Jean-Jacques Sempé e por René Goscinny, a trama traz um olhar para as coisas simples da vida e para a imaginação extremamente fértil das crianças. Tudo começa quando Nicolau (Maxime Godart, em sua estreia nas telonas) equivocadamente descobre que ganhará um irmão, tomado por um turbilhão de pensamentos fantasiosos e ingenuamente divertidos o garota tenta, juntamente com os seus amigos (cada um mais engraçado que o outro), traçar um plano para se livrar do seu irmãozinho. O universo lúdico é bem explorado através da direção de arte e da fotografia iluminada e colorida que dão o tom perfeito à obra.

A guerra dos botões (La Guerre des boutons, 1962)

Essa adaptação do livro homônimo de Louis Pergaud, dirigida por Yves Robert gira em torno da rivalidade existente entre um grupo de crianças de dois povoados vizinhos que levam os botões das roupas de seus “prisioneiros de guerra” como uma espécie de troféu. A premissa aparentemente simples traz consigo debates sobre o republicanismo; os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade; o valor das amizades; o amadurecimento e por fim em sua conclusão bastante sábia e otimista reafirma a pureza dos sentimentos imaturos (ou melhor, maduros) das crianças quando comparadas aos adultos. Entre as quatro versões já filmadas dessa estória (1936, 1967, 1994 e 2011) dê preferência a esta de 1962 ela é a que aparentemente melhor traduziu o espírito da obra original.

Tomboy (Tomboy, 2011)

Audaciosa e bem-sucedida em sua abordagem sobre a homossexualidade, esta película acompanha a estória de Laure (Zoé Héran, em um desempenho superlativo) a garota que ao se mudar para uma nova vizinhança decide adotar a identidade de Michaël, logo começa a se enturmar com os seus novos amigos e a alimentar uma paixão por Lisa (Jeanne Disson), uma moradora do condomínio. Nesse circulo vicioso de faz de conta, a mentira de Laure vai tomando proporções cada vez maiores. A trama explora de forma imparcial a descoberta da sexualidade da garota e traça o caminho entre a aceitação desse fato e a gênese do preconceito. O trabalho da diretora Céline Sciamma com o elenco-mirim para dar vida a essa trama tão peculiar e delicada sem dúvida fez toda a diferença.

Bem, espero que vocês tenham gostado desse post, se tiverem mais alguma sugestão de filme compartilhem conosco! Aninha (♥) muiiiiiito obrigado pelo convite! É uma honra estar aqui no THC por onde já passou tanta gente legal!

por Thomson Albuquerque.

 

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2 Comentários

  1. iago möller

    Os títulos parecem interessantes! Acho que agora já sei o que vou fazer neste resto de domingo, hahaha

  2. Le Petit Nicolas é a coisinha mais fofa! 🙂

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