Guest Post: Parnaíba e seus personagens

Fazia tempo que eu vinha desejando criar uma tag nova aqui para falar de viagens. Infelizmente, nós viajamos para bem menos lugares do que gostaríamos e com muito menos frequência do que pretendíamos,  então, a idéia dessa tag vai ser a de compartilhar não apenas lugares que visitamos, mas também lugares que sonhamos em conhecer. Para a estréia da tag, o roteiro é  nada mais, nada menos do que a a nossa cidade, Parnaíba – PI. Mas quem vai apresentá-la para vocês não somos nós! Vocês vão conhecer um pouquinho do litoral piauiense e de seus personagens através do olhar do Lucas, um amigo carioca, que reside em Fortaleza há alguns anos, e que veio fazer sua primeira visita à cidade no final do ano passado. Então, com a palavra: LUSCA!

Parnaíba de muitas faces. Subindo a ponte para dar na Ilha Grande de Santa Isabel, rumo à Pedra do Sal. Voltando ao Porto Salgado ou Porto das Barcas. Rente ao rio, próximo ao mar e muito espirituoso estive seguindo viagem. Nos dias em que estive aí meu coração palpitava por conhecer as cores de suas praias e construções, tuas histórias e gente. Parnahyba de trilhos, portos, água e areia. De ruínas que guardam memória. De pobres caídos no bar, cafetões e putas ao audacioso Simplício Dias da Silva que presenteara D. Pedro com um cacho de banana folheado a ouro e que formava sua orquestra de negros e índios para tocar em suas festas.

Fui muito bem acolhido e embalado pelo querido amigo Renan Correia, sua família, amigos e sua companheira, Aninha.  Conhecia pouquíssimo sobre a cidade. O que a princípio seria um encontro entre amigos com o propósito de futuras parcerias musicais e intelectuais, tornou-se um eterno desenrolar de sentimentos, sensações e descobertas pela encantadora PHB. Cerveja gelada, comida boa, companhias agradáveis e inusitadas. Por três noites e manhãs no Chez Bar e Café no Ponto entre amigos e outros dias mais. Senti-me em casa.  Muitas foram as investidas nesse viciante universo. A cidade em clima de Réveillon – mesmo tomada por teresinenses, fortalezenses, turistas e empresários que pouco se importam com o ritmo e a natureza local – esteve bela e segura.  

(foto de cima: Praia da Pedra-do-Sal, embaixo: bangalô à beira-mar na Vila Itaqui.)

Hospedado no Chalé Suiço, conheci um dos personagens excêntricos dessa minha visita à Parnaíba: Robert, o dono da pousada. O estrangeiro de uns 50 anos, de ralos cabelos negros, possivelmente tingidos, não é de muitas palavras. Pouco me encontrei com ele, mas seu jeito e suas frases marcaram a mim e a Renan.  Pouco posso falar também dos serviços da pousada, que nessa viagem só me serviu para alguns banhos, para dormir e assistir a um pouco de TV (que por sinal tem alguns canais extras como MTV). A piscina esteve suja por uma semana e o café da manhã não provei por nunca acordar no horário.  No local, percebe-se: o suíço é louco por futebol. Para cada quarto, uma bandeira de país campeão da Copa do Mundo desenhada na entrada, do lado da porta. Fiquei no quarto da tetra campeã, Itália.  O suíço, por sua vez, é santista. Começou a torcer pelo time após a visita do time brasileiro à sua cidade européia. Ele, então, viu Pelé jogar e não teve jeito: se encantou.

Quando cheguei à pousada, a apresentação do local me foi poupada. Acertamos o dinheiro. Cinquenta reais a diária e Robert partiu para me mostrar o quarto. Fez questão de frisar que ali era quarto para um hóspede, mesmo havendo uma cama de casal e uma outra para solteiro. Afirmou com seu sotaque de estrangeiro: “Se trouxer uma amiguinha vai ter que pagar a mais”. […]


No mesmo dia, após o inicio de minha estada na pousada, conheci uma outra figura, talvez a  mais significativa no meio cultural da cidade. Artista, produtor, fotógrafo, ator, cantor, agitador cultural e etílico, o camaleão Zé de Maria me foi apresentado no Porto das Barcas juntamente com Teófilo, músico e dono do bar local, Porto Salgado.  

Essa foi uma noite de muitas “saideras”, gritos e falas desencontradas de Zé. Ele tentava nos contar uma história dos tempos em que era dono do bar onde estávamos. Até agora, eu e outras pessoas que estavam na mesa naquela noite nos perguntamos onde Zé de Maria queria chegar com tal depoimento. Rimos muito das suas onomatopéias bizarras e seus gritos.

Tive a oportunidade de ver alguns dos seus trabalhos. Um deles, uma toalha com a Marilyn Monroe de Andy Warhol, está exposto no restaurante principal do Porto das Barcas (Novo Rio’s).  Praticamente um ready-made do artista local, que viu aquela peça à venda e decidiu emoldurá-la. Vi também algumas de suas fotos em exibição numa pousada próxima. Sua arte é pop, como a de Warhol. Marcas e símbolos de nossa sociedade estão agregados em espaço imaginário. Uma verdadeira foto-colagem feita por Zé.  

[…] Ao lado do Porto das Barcas há anos funcionava outro ponto de encontro famoso na cidade: o restaurante Acontece. Atualmente ele está localizado um tanto quanto longe dali, afastando inclusive alguns clientes. Apesar de afastado, o local é aconchegante, com sua pouca luz e obras de arte espalhadas nas paredes. O seu diferencial, entretanto, é o carioca Marquinhos, proprietário, morador, único garçom e DJ do estabelecimento.

Fui duas vezes ao Acontece. Marquinhos, um sujeito de uns 40 e tantos anos, cabelos grisalhos, sempre de uma educação formal, atende sem sorriso na boca. Chega a ser estranho no começo conversar com ele. “Boa noite, Marquinho. Qual a cerveja está mais gelada?”. “Todassss” – responde com o “s” bem chiado. E é verdade. Sua cerveja e comida são ótimas. Comi moqueca de arraia e manjubinha. Essa última é um peixe menor que a piaba. Não me lembro de ter experimentado e achei delicioso. “Qual o segredo, Marquinho?”. “Não tem segredo, não. Compro o peixe igual a todo mundo aqui. O resto é a mão da cozinheira” – responde, referindo-se à sua mulher que prepara tudo na casa.

[…] No segundo dia, já era 1h da manhã quando chegamos ao Acontece, eu, Renan e Aninha. Encontramos uma mesa grande com amigos e nos juntamos. Pedimos cerveja e eu estava a fim de comer novamente a tal manjubinha. Entretanto, a cozinha estava fechada. Sua mulher já estava dormindo. Pelas 2h e 30 da manhã decidimos que deveríamos deixar o dono do restaurante descansar. Marquinhos trazia no colo, junto com a conta, sua filha de 4 anos. A linda menina, de cabelos lisos e pretos, parecida com uma indiazinha, havia acordado e daria trabalho ao pai para voltar a dormir.   Nesses poucos dias, o Acontece foi um local que me encantou. “Por que esse nome, ‘Acontece’, Marquinhos? É referente à música do Cartola?”. “Ah, não. Conheço essa música. Mas na época fizemos uma votação para escolher o nome do bar. E então sugeriram esse. Ficou”. Sem mais explicações – acontece.

Por fim, não poderia deixar de citar dois personagens da família Correia que me fizeram enxergar a cidade com outros olhos. Vão ficar na lembrança as imagens de seu Israel Correia cantando emocionado duas músicas de sua autoria (que merecem devida atenção) em louvor à cidade: “Porto Salgado” e “Ataláia”, além do hino de Parnaíba.  Estive também ao lado de Lauro Correia, ex-prefeito da cidade e avô de Renan, que, com toda sua vitalidade ainda aos 80 anos, contou-me as singularidades de Parnaíba. Disse-me que escrevera um artigo para o jornal sobre 10 coisas que só se encontram na sua cidade. Pôde me falar apenas de cinco desses pontos. De uma forma super descritiva, comentou em primeiro lugar a Lagoa do Portinho; em segundo o Delta do Parnaíba; em terceiro o anuário da cidade existente há oitenta anos; depois o cajueiro de Humberto de Campos;  e, por último, falou de uma obra que teve grande empenho de sua parte, assim como a concepção da bandeira e o hino de Parnaíba, construiu em seu governo, na época, um símbolo duradouro: o centro cívico da cidade. As outras singularidades de Parnaíba ele me disse que ficariam para uma próxima ocasião. Achei que o Sr. Lauro deveria incluir a si na própria lista. Até comentei com o Renan sobre isso: “Seu avô é uma memória viva. Deu vontade de fazer um documentário sobre suas histórias”. Ele me disse que pensava o mesmo.    

Após ter conhecido essas tantas pessoas, mais outros tantos amigos de Renan que me encantaram, tenho certeza que, na minha tentativa descritiva, posso atribuir ao povo de Parnaíba qualidades supremas como força e personalidade. No grande âmbito das palavras.

Texto e imagens: Lucas Benedecti

P.S.: O Lucas nos enviou o texto lindo (e enorme!), que a gente leu com todo carinho,  entretanto, com o intuito de facilitar a leitura em um post, algumas partes que não afetariam em seu entendimento foram reduzidas.
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Mas me contem: vocês gostaram do nosso passeio de hoje? 🙂

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10 Comentários

  1. Só quem conhece o Zé de Maria pra entender o que o Lucas disse. Nossa, que texto lindo! Acho que só o Parnaibanos vão absorvê-lo tal qual, mas, é de uma leitura universal e encantadora 🙂

    1. Eu também adorei, mas sou mais do que suspeita, né? Vou ver se coloco mais imagens porque as fotos do Lucas ficaram lindaaaaas!

  2. Lindo relato! Fico muuito feliz em ver o nome do nosso bar (Chez) sendo tão bem lembrado! Adorei e nossa equipe espera que ele retorne, será claro um prazer e muito bem-vindo! =)

  3. também não viajo tanto quanto gostaria, meu sonho é abrir uma tag de viagens minhas!

    Sobre o destino em questão, é um lugar pouco lembrado,não é? Eu só tinha ouvido falar de nome. As fotos estão lindas e até poéticas! combinando muito com o texto. Tem aquela cara de lugar que a gente se sente bem, que quer passar a vida inteira lá.

    1. Jroiz, de onde você é? Que bom que você já conhecia, pelo menos de ouvir falar. Eu esperava que as pessoas que não moram próximo da gente, comentassem que nunca tinham ouvido falar em Parnaíba! Já me surpreendeu seu comentário! haaha!

      Faça sim a tag de viagens no seu blog e fala dos lugares que você já conheceu ou mesmo dos que você ainda não conhece, mas sonha em conhecer, contando o que você acha que tem de legal por lá. O que você acha? Eu ia adorar ler!
      Beijos e obrigada pelos elogios!

      1. Sou da Bahia =D

        Sobre a tag de viagens, vou pensar sobre isso! pode ser algo interessante de se fazer ^^

  4. lucasbenedecti

    Nossa, adorei a postagem. O Blog é mt bonito. Valeu Renan e Aninha! Vontade de voltar praí. Lembrei de tudo novamente. Beijos e abraços!

    1. Lusca! Que bom que gostou. Suas fotos são lindas demais! =) E volte logo que a gente já tá com saudade aqui! haha!

  5. lucasbenedecti

    Ficou muito bonito o post. Saudades. Ainda volto praí. Valeu Aninha e Renan. Beijos e abraços!

  6. Fotos e narrativa encantadores!!!!!

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